A sabedoria do olhar: o universo fantástico de Boris Kossoy

A sabedoria do olhar: o universo fantástico de Boris Kossoy

Pedro Karp Vasquez

Boris Kossoy é conhecido por sua trajetória acadêmica, tendo realizado a primeira pesquisa de doutorado sobre história da fotografia no Brasil, em 1979. Professor titular da ECA, na Universidade de São Paulo, Kossoy mostra neste livro sua outra faceta: a de fotógrafo-autor. Uma mostra significativa de sua vasta produção fotográfica cobre o período de 1955 (suas primeiras fotos na infância) a 2008. Buscando romper com a fronteira entre realidade e ficção e com a hegemonia da fotografia como registro da realidade, o fotógrafo faz do fantástico elemento constitutivo de sua obra. O livro, uma co-edição da Cosac Naify, Imprensa Oficial e Pinacoteca do Estado de São Paulo, conta com uma apresentação de Jorge Coli, duas entrevistas extensas com o autor, e uma detalhada cronologia.

Leia a seguir texto de Pedro Afonso Vasquez a respeito da edição:

A SABEDORIA DO OLHAR: O UNIVERSO FANTÁSTICO DE BORIS KOSSOY

Assim como o cinema constitui um campo muito específico da dramaturgia, a fotografia também constitui uma disciplina bastante especial entre as artes visuais. As trocas e as passagens com as demais disciplinas são constantes e intensas, mas existe um mundo da fotografia como existe um mundo do cinema. E, em ambos, é comum a passagem da teoria para a prática – como no caso da Nouvelle Vague francesa, composta por cineastas essencialmente egressos do Cahiers du Cinéma –, ou, ao contrário, da prática para a teoria ou a administração cultural, como é mais comum no campo da fotografia. Muitos dos grandes curadores e historiadores da fotografia vieram da prática, como Ansel Adams, Beaumont Newhall, Alfred Stieglitz, Edward Steichen e John Szarkowski.

Boris Kossoy também saiu da prática para a universidade, tornando-se a primeira pessoa a fazer um doutorado sobre o tema no Brasil (1979) e desenvolvendo uma carreira acadêmica exemplar que o levou à livre docência (2000) e à condição de professor titular da Universidade de São Paulo (2002). Paralelamente, lançou os fundamentos da pesquisa histórica no setor, publicando uma dezena de títulos fundamentais, entre os quais o Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro. Além de reconstituir as condições em que o francês radicado em Campinas, Hercule Florence, realizou uma invenção isolada da fotografia no Brasil, Boris Kossoy teve o cuidado de comprovar cientificamente suas afirmativas ao conseguir que o prestigioso Rochester Institute of Technology reproduzisse passo a passo as experiências de Florence. Essa iniciativa não só atestou a viabilidade do processo criado por Florence, como contribuiu para inscrever seu nome – e o do Brasil – entre o dos precursores mundiais da fotografia.

Toda essa intensa atividade de historiador, combinada com a de administrador cultural – com passagens marcantes pelo MASP, pelo MIS e pelo Centro Cultural São Paulo – deixaram a fotografia de Boris Kossoy numa zona de penumbra conhecida apenas por pesquisadores e ignorada pelo grande público. Assim, a presente edição de Boris Kossoy: fotógrafo é uma oportunidade única para reatarmos contato com a produção de um criador que merece o epíteto de “fotógrafo autor”, empregado para aqueles que não se limitam a observar o mundo exterior por intermédio de suas lentes, fazem-no a partir de uma perspectiva pessoal distintiva.

O fotógrafo Boris Kossoy se destacou em 1971 com o lançamento do livro Viagem pelo Fantástico, com prefácio de Pietro Maria Bardi, obra que ainda hoje é singular no cenário editorial brasileiro em virtude do caráter ensaístico que foge ao padrão usual dos livros de fotografia, geralmente organizados em torno de um tema determinado ou sob forma de coletânea do tipo “as melhores fotos de”. Em entrevista reproduzida no presente volume, o próprio Kossoy assinala que seu ensaio foi recebido na época com estranheza pela comunidade fotográfica, então excessivamente presa à fotografia documental e descritiva. Mas o fato é que somente em fins do século XX é que a fotografia brasileira se libertou da esmagadora supremacia do real, estando, portanto, madura para assimilar as imagens fantásticas de Boris Kossoy, que o inserem num círculo de criadores restrito, mesmo em termos internacionais, mas que congrega nomes como os dos norte-americanos Ralph Eugene Meatyard, Arthur Tress e Jerry Uelsmann, o francês Bernard Faucon, o holandês Paul de Nooijer e o mexicano Manuel Álvarez Bravo.

Além das fotografias fantásticas que podem ser consideradas a expressão visual do realismo fantástico que dominava a literatura latino-americana da década de 1970, a presente obra reúne também diversas imagens mais diretas, como a série de “Cartões antipostais” em que Kossoy focalizou diversos pontos do Brasil com o propósito de desvelar uma faceta não idealizada do país então mergulhado no chamado “milagre brasileiro”, sonho ilusório que pretendia mascarar um real pesadelo: o regime militar. Também nos anos 1970, Boris Kossoy fotografou profusamente as manifestações políticas e a vida urbana de Nova York, com uma ênfase nos detalhes arquitetônicos, tornando explícita sua formação universitária como arquiteto.

A partir do momento em que concentrou suas atividades entre a pesquisa histórica e a função de administrador cultural, Kossoy parece ter aproveitado suas viagens de trabalho para registrar aqui e ali paisagens, vistas urbanas, ambientes e detalhes arquitetônicos impregnados de mistério e expectativa. Deixou assim de orquestrar uma representação plástica do fantástico para buscar indícios do fantástico escondidos sob a capa do real. E, por outro lado, ao optar por uma diagramação em que ocorrem diversos confrontos ou diálogos entre imagens – focalizando ou não os mesmos temas e/ou locais; em épocas diversas ou não; em preto e branco ou em cor –, criou dípticos em que a simples aproximação das imagens extrai delas novos significados, diferentes daqueles proporcionados pela visualização independente ou sucessiva destas fotografias.

Tudo isso faz de Boris Kossoy: fotógrafo uma obra capital para quem deseja compreender melhor a produção de um dos paladinos da afirmação da fotografia como meio de expressão no Brasil – como um dos líderes do Grupo Photo-Galeria, a primeira tentativa séria de inserção da fotografia no mercado de arte em nosso país, em 1974. Ao passo que a própria publicação do livro é em si reveladora da crescente maturidade do mercado editorial no que diz respeito à concessão de um espaço maior para a fotografia, com o resgate e a progressiva difusão do legado de grandes nomes da fotografia brasileira surgidos a partir de meados do século XX, tais como: José Medeiros, Geraldo de Barros, German Lorca, Luís Humberto, Otto Stupakoff e Alair Gomes. Com a presente edição dedicada à obra de Boris Kossoy, a Cosac Naify efetua a justa homenagem a um dos guardiões da luz da fotografia brasileira, um pesquisador, historiador e professor que iluminou o caminho para toda uma geração de fotógrafos.

Pedro Vasquez é diretor do Solar do Jambeiro (Niterói, RJ) e autor de diversos livros sobre fotografia, entre os quais: Dom Pedro II e a fotografia no Brasil, Fotógrafos alemães no Brasil do século XIX e O Brasil na fotografia oitocentista

Vasquez, Pedro Karp. A sabedoria do olhar: o universo fantástico de Boris Kossoy in: CosacNaify. São Paulo, ago 2010.

 



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