As revelações de um olhar aguçado

As revelações de um olhar aguçado

Gazeta Mercantil

Por Miguel de Almeida

Retrospectiva na Pinacoteca do Estado exibe o realismo mágico do artista

O escritor e professor Boris Kossoy, cuja retrospectiva “O Caleidoscópio e a Câmara” é  uma referência intelectual e criativa quando o assunto é fotografia. Em 120 trabalhos realizados ao longo de 40 anos de atividade, a mostra apenas atesta a afirmação: são imagens fortes, clicadas dentro do que dentro do que se chama realismo mágico, algo sob a influência de Borges e Cortázar, quando o inusitado ocupa a realidade cotidiana. Autor de vários livros, entre eles os fundamentais “Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro” e “Hercules Florence – A Descoberta Isolada da Fotografia”. Kossoy fala a seguir sobre influências e sobre a construção de seu trabalho, cada vez mais reconhecido no Brasil e no exterior, onde integra acervos de importantes museus. Os principais trechos da entrevista:

Gazeta Mercantil: As fotos expostas na Pinacoteca cobrem vários per[iodos de sua produção. Mas se percebe nelas um elo. O senhor procura sempre construir um estranhamento a partir da própria realidade?

BK: A exposição cobre quatro décadas da minha produção fotográfica sendo duas delas de datas anteriores ao início da minha atividade profissional (quando ainda era muito jovem, em 1955). Sim, existe um elo que perpassa essa produção não importando o tema, a época ou o local onde as  fotos foram tomadas. Esse estranhamento que você fala não ocorre como uma busca premeditada, como se fora o objeto da foto; se há um estranhamento ele ocorre enquanto expressão do que sou, do meu modo de ver e compreender o meu entorno.

Gazeta Mercantil: Concorda que há nelas uma espécie de desconcerto para o espectador, algo próximo a imagens surrealistas? Digo isso pelo inusitado de certas situações, como o sujeito saindo do bar, em Nova York, enquanto o outro está dormindo, estendido, num carrinho.

BK: Se existe esse desconcerto é essa uma sensação ou reação que parte da recepção. No caso da fotografia específica que você menciona eu documentava certas áreas degradadas  de Nova York como o Bowery, por exemplo, onde tomei essa cena. Tratava-se naquele momento, em 1971, de local onde bêbados das imediações se reuniam em grupos. O indivíduo quando me viu com a câmera se levantou e dirigiu-se em atitude agressiva contra mim. Essa é uma imagem de documentação e não houve nela nenhuma intenção surrealista.

Gazeta Mercantil: De outro lado, suas fotos trazem o que chamam de clima metafísico. Até que ponto esse clima é resultado do espontâneo e outra parte é fruto de uma construção?

BK: Começando pelo final da pergunta, toda fotografia resulta de uma construção. E isso ocorre sempre  independentemente da temática, do objeto ou da situação. A imagem fotográfica é resultado de um modo especial de vermos o mundo, tem a ver com nosso repertório e experiência, com nossa mentalidade e ideologia, com tudo aquilo, enfim, que somos. As imagens que compõem a exposição foram selecionadas de um longo período de quatro décadas. Elas são testemunhos de diferentes momentos da realidade que vivi do ponto de vista pessoal e naturalmente da minha trajetória acadêmica e profissional. São, pois, muitas as variáveis a serem consideradas. Várias fases podem ser detectadas ao longo desse período e, é natural que as motivações de uma época específica direcionam os teus interesses, intenções e criatividade. Há o político e o simbólico assim como há o literário e o teatral. Em razão de tudo isso há o encenado – caso bem exemplificado nas imagens dos anos 60 e 70, em particular nas imagens da série do realismo fantástico – e o espontâneo, que atravessa a maior parte da obra. Há momentos e momentos.

Gazeta Mercantil: No seu trabalho, qual é o peso do clique espontâneo? A impressão que tenho, vendo sua retrospectiva, é que mesmo o espontâneo é produto de vários momentos (uma idéia estabelecida) de espera.

BK: Há diferentes níveis de espontaneidade nas fotos que tomamos. Certos trabalhos, como o da série dos cartões anti-postais do Brasil, por exemplo, é certo que havia uma idéia estabelecida para documentar o País segundo uma visão centrada em temas comuns, corriqueiros do cotidiano, em oposição à idéia das vistas das belas praias do Brasil, da ordem urbana, do Carnaval fascinante e do futebol, alegria de um povo. Estava mais preocupado em mostrar um outro Brasil, o periférico. Era imperioso mostrar essa imagem em tempos de “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Assim, penso que a imagem da  Justiça de olhos vendados posando sob o céu negro de Brasília é significativa de um momento da história contemporânea do Brasil, é uma imagem espontânea e surge de uma idéia certamente estabelecida.

Gazeta Mercantil: Como o senhor escolhe suas cenas? O que uma cena deve ter para merecer ser clicada?

BK: Não tenho uma fórmula pessoal para isso. Apenas sei que observo muito e sou econômico nos registros. Alguma coisa em alguma cena, entretanto, me atrai por alguma razão que não há tempo para meditar a respeito. O fato é que, quando dei por mim, já tomei a foto. Como grande parte dos fotógrafos, às vezes me surpreendo, e o resultado supera o que imaginava, outras vezes acontece o contrário.

Gazeta Mercantil: O senhor alia a condição de intelectual – é professor, com vários livros publicados, é estudioso da fotografia – e de fotógrafo profissional. Até  que ponto a primeira condição o influencia quando pega a câmera para clicar uma cena? Isso não o torna às vezes mais e mais seletivo no momento de fazer uma foto, com receio de não estar glosando outro colega?

BK: Quando fotógrafo sou essencialmente um fotógrafo buscando meus fantasmas e registrando o que minha intuição sugere.

Gazeta Mercantil: A série da pobreza – mesmo num tema árido, e muito freqüentado pelos fotógrafos, você constrói situações plásticas, como o garoto na porta do barraco com pés descalços. Dá para perceber que você não se contenta em reproduzir a cena, mas tem de interferir no registro, aplicando uma certa plasticidade.

BK: Não se concebe a fotografia solta, vagando no espaço. O lugar da fotografia é o retângulo que ela irá habitar para sempre, sua morada eterna. É o espaço e forma que situa a cena registrada. É inevitável que no retângulo fotográfico o fato, o cenário, os personagens, a situação fotografada podem ter sido objeto de maior ou menor preocupação com os componentes estéticos inerentes à imagem durante a sua elaboração, desde o momento do registro até  a sua apresentação final. Contudo, a interferência na vida social reside no próprio registro fotográfico congelando o objeto no seu contexto, no caso mencionado o menino na porta do barraco, há 40 anos. O fenômeno sociológico está documentado segundo a estética da fotografia. Isso é o que ocorre e o que importa.

Gazeta Mercantil: Em outra foto, a que mostra um carro funerário em frente a uma clínica onde só estão objetos, sem a presença de pessoas. Até que ponto você prefere trabalhar com uma narrativa destituída de personagens humanos para realçar sensações? É o metafísico?

BK: Esta é uma foto de 1968 ou 1969. Registrei essa situação na zona norte de São Paulo nas minhas andanças pelas periferias da cidade. Na verdade não se trata de uma “clínica”, mas de uma modesta casa de uma parteira da região. Passei e vi a cena. O drama social nela é explícito, não requer a presença de personagens para trazer impacto maior do que o documentado. Infelizmente esse Brasil de ontem  segue o atual. A foto foi utilizada, posteriormente pela Rádio Jovem Pan para anunciar sua programação de notícias. Se não me engano era um programa conduzido por Ney Gonçalves Dias. Uma série de anúncios reproduzindo essa foto foi veiculada pelo Jornal da Tarde.

Gazeta Mercantil: A noiva na estação, sozinha; a modelo com os seios à mostra – ambas situações de solidão e desassossego. Uma das funções da sua fotografia é a de perturbar ao contrário de colegas seus que a usam como ilustração?

BK: Trata-se de imagens produzidas com cerca de 30 anos de distância uma da outra. As fotografias nos causam uma perturbação quando há algo nelas que nos afeta de alguma forma, quando algo nos remete a situações que vivemos ou sonhos que tivemos. Quando nos fazem pensar, quando nos amedrontam ou nos sensibilizam. Quando se instalam em nossas mentes ou quando fluem do nosso imaginário.

Gazeta Mercantil: Num mundo cada vez mais cheio de imagens, como conseguir uma cena diferenciada, marcante?

BK: Quando a oportunidade se apresenta. Por isso a observação tem papel fundamental.

Imagens que atormentam

A fotografia brasileira possui um grau de excelência pouco observado mo espaço da grande mídia. Autores variados conseguem uma exposição consagrada em muitas galerias e museus estrangeiros atestando a originalidade de seus trabalhos – seja no fotojornalismo ou na construção de séries mais artísticas.

O trabalho de Boris Kossoy reunido na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, apenas exibe ao grande público uma realidade conhecida em pequenos círculos, o da  sua imensa contribuição criativa ao universo fotográfico.

Isso para não dizermos de seu lado acadêmico: Kossoy é autor, entre outros livros, do importantíssimo  e pioneiro “Dicionário Histórico-Forográfico Brasileiro”, que traz informações de autores perdidos nos cafundós do Brasil, além de  sistematizá-los; e de um ensaio histórico sobre a descoberta da fotografia, no Brasil, por Hercule Florence, um trabalho que vem sendo publicado em diversas línguas mundo afora.

Pois o fotógrafo Boris Kossoy é um autor de imagens econômicas, estranhas e altamente plásticas. Na retrospectiva de seus quarenta anos de trabalho, observa-se um olhar arguto e poético, informado e ingênuo, engajado e inocente – sua galeria de registros leva o espectador a oscilar entre o estranhamento, a euforia e o profundo desconcerto.

Tais emoções, ou reflexões, surgem a partir de imagens todas retiradas do cotidiano, dando a certeza de que nem sempre os olhos estão assim tão abertos para captar o inusual, ou mágico, trazida pela realidade. É que ele só é mesmo percebido ou refundido, por olhares mais treinados, no mínimo especiais.

Kossoy traz em suas fotos contribuições críticas ao universo político ( há lá uma escultura da Justiça de olhos vendados sob um céu escuro em Brasília: a foto foi feita sob a ditadura militar; apenas esse registro economiza centenas de linhas da nossa indignação quanto ao nosso sufoco democrático de então); O nosso estado de pobreza e insensatez (é o caso de um carro funerário estacionado em frente  a casa de uma parteira da periferia paulistana), e por fim a solidão humana (caso da noiva solitária no banco datação de trem).

O autor trabalha sempre no limite entre cãs emoções, os comentários e a plasticidade. Mesmo quando são imagens altamente emotivas, o elemento intelectual não é abandonado, não ocorre um barateamento ou uma redução de seu conteúdo. É algo notável porque concilia diferentes intenções, dentro de um mesmo clique, e exibe habilidade e dosagem poética.

Uma volta a tenta diante das fotos produzidas por Kossoy, dentro desta retrospectiva “O Caleidoscópio e a Câmara”, é capaz de levar o espectador a diferentes estágios, da confortável catatonia diária à indignação e á desconfortável reflexão sobre os papéis, nem sempre honestos, cumpridos pelo homem em sua passagem pela terra.   (M.A.)

Almeida, Miguel de. As revelações de um olhar aguçado in: Gazeta Mercantil. São Paulo, mar 2008.

 



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